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Being There

Uma das melhores coisas que eu fazia na UFMA, além de ficar na escadaria do CCH batendo papo a respeito de deus e o mundo com os amigos, era ir sozinho à biblioteca e passar algumas horas escolhendo os próximos livros a serem devorados.

Li muito livro chato, muita balela acadêmica que só me serviram enquanto estava na academia. Mas a maior parte do que li, ou por causa do curso de História (aliás, em um próximo post vou falar um pouco sobre a minha relação, não diria complicada, ambígua talvez, com a História, de fato prefiro a Literatura, enfim, em um próximo post), ou por causa da minha curiosidade na biblioteca central da universidade, só me fizeram bem. Grande bem.

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Nascido Józef Lewinkopf judeu e polonês em 1933, Jerzy Kosinski tornou-se americano em 1965, escreveu em inglês a vida toda, digo, todos os seus romances são na língua do país que o acolheu depois das desgraças muitas da vida. Por hora, isso basta.

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Na primeira vez que fui roubado estava bêbado, e carregando na bolsa o livro Steps de 1969, um dos Best-Sellers de Kosinski. Pensei que nunca mais iria deparar-me novamente com o cara, até que O videota me aconteceu:

Li a primeira edição brasileira (essa aí da foto) que é de 1971, no segundo ano de faculdade; lembro porque o livro me marcou muito.

O livro, Being There no original, é uma novela enxuta, estrutura simples, linguagem simples, enredo simples… tudo para que a história do personagem “Chance”, cuja principal característica é a simplicidade, em todos os aspectos de sua vida, prevaleça sobre tudo e todos.

Aqui embaixo a edição mais recente do livro, de 2005, a que tenho, com um posfácio bem legal do Xico Sá, e cujo título é  O vidiota.

Como já disse, lia de tudo (fase de descoberta), intelectualóides, farsantes, e todos aqueles que acham que escrever é tudo menos contar uma boa estória, ou, no mínimo, se fazer entender.

A analogia que cabe aqui é a seguinte: imagine a sensação de neguinho em meados de 70, quando as pirações do progressivo eram “a” coisa, vendo surgir do nada o Ramones, a simplicidade genial do Ramones. Imaginou a rasteira?! Foi exatamente isso, uma rasteira.

Não vou contar a estória do livro, em verdade, não há muito que contar.

Vejamos:

Chance, cuja existência de tão simples e objetiva não é percebida por ninguém além dos muros do seu jardim, não tem história antes e só tem história depois porque os outros personagens todos inventam pra ele. Ele só vive, no e para o seu jardim (ah sim, ele é o jardineiro de um rico senhor cuja morte desencadeia uma sucessão de acontecimentos que transformam Chance, simples jardineiro (Chance, the gardener), em Chauncey Gardiner, uma importante figura política e econômica dos EUA); sua fala e seus pensamentos só existem a partir de duas coisas: a TV que o ensinara a viver, e o Jardim, seu motivo de vida. Todas as principais falas de Chance no livro perpassam alguma situação envolvendo a TV ou o seu Jardim; ele fala sinceramente sobre as estações climáticas que comandam suas atividades no Jardim, e quem o escuta, por interesse próprio, entende que ele fala de outra coisa qualquer; assim, quando, por um dos acasos que constroem a estória do livro, ele conhece o presidente dos EUA, e este o indaga a respeito da grave situação financeira do país, Chance responde:

“Num jardim há estação do cultivo. Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois, de novo a primavera e o verão. Enquanto as raízes não forem arrancadas, está tudo bem e terminará bem.”

O presidente, achando aquela resposta animadora e otimista, e achando que realmente Chance era uma fonte segura de interpretação da realidade econômica do EUA, diz:

“Muitos se esquecem de que a natureza e a sociedade são uma coisa só! Sim, embora tenhamos tentado no desvincular da natureza, ainda fazemos parte dela. Há muito tempo nosso sistema econômico parece estável e racional como a natureza, e é por isso que não devemos temer ficar a sua mercê.” (pg.44)

Todo o livro é feito dessas interpretações errôneas que dão a existência do jardineiro um significado diferente daquele que o próprio Chance acha que deva ter; pensando bem, Chance é o menos capaz e disposto a achar que sua vida tem algum significado. Ele só vive.

Recentemente, assisti ao filme baseado em Being There, de 1979, dirigido por Hal Ashby, com o mais que genial Peter Sellers interpretando o papel de Chance. Jerzy Kosinski é o roteirista do filme. Gosto do filme, é bonito e tem ótimas atuações; provavelmente, se o filme fosse realizado como roteiro original me cairia melhor, mas como adaptação… não sei. O chance do filme é passado como idiota com forte tendência para a demência, a maioria das cenas o transforma em um completo doente mental, e acho que isso é muito mais falha do filme/diretor, do que da atuação do Peter Sellers. O Chance do livro é muito mais sutil em sua idiotice, não faz muito alarde das coisas. Ele só vive.

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Li outros livros de Jerzy Kosinski, inclusive aquele que fui roubado, consegui achá-lo em um sebo da vida. Being There é o que mais gosto, e o que mais difere de sua obra literária.

Kosinski suicidou-se em 1991, toscamente, sufocando a si mesmo com uma sacola de plástico.

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