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Posts Tagged ‘João Cabral de Mello Neto’

Na primeira vez que li João Cabral de Melo Neto, entendi o que era poesia (de verdade), seriedade intelectual e integridade humana.

Tem essa entrevista genial do Geneton Moraes Neto com o Poeta, aqui, feita em 1986. E é dela que retiro esse trecho:

 

GMN: O senhor sempre diz que não gosta de fazer poesia dada a emoções porque o que se chama comumente de emoção é algo feito à base de um sentimentalismo fácil e barato. O senhor diz, pelo contrário, que “emoção é outra coisa”. Mas nunca ficou exatamente clara a definição que o senhor tem de “emoção”. Dá para explicar – de uma vez por todas?

João Cabral: “Minha definição de emoção não é nada de especial. É o que todos chamam de “emoção”. O que acontece é que me recuso a explorar essa coisa diretamente. O interesse do poeta não é descrever suas emoções e criar emoções, é criar um objeto – se é poeta, um poema; se é pintor, um quadro – que provoque – emoções no espectador. Mas não explorar nem descrever a própria emoção. Quando digo que sou contra emoção é exatamente neste sentido: o de usar a minha emoção para fazer com ela uma obra, descrevê-Ia primariamente e construir, com ela, um poema”.

GMN: Quer dizer, afinal, que o senhor não é exatamente contra a emoção: é contra a exploração da emoção…

João Cabral: “Exatamente! (Faz ar de alívio, como se a charada estivesse resol- vida). Quanto a esse descrever da emoção e da sentimentalidade, a grande maioria da poesia que se escreve no mundo é assim. A obrigação do poeta, repito, é criar um objeto, um poema, que seja capaz de provocar emoção no leitor”.

GMN: O que é que o senhor chama de “emoção intelectual”? Já vi o senhor usando esta expressão..:

João Cabral: “Um grande crítico americano uma vez disse o seguinte de uma poetisa americana, Edna Miller: que ele não gostava da poesia que ela fazia porque não tinha interesse intelectual. É nesse sentido que eu digo. Você pode ver perfeitamente quais são os escritores que têm um interesse intelectual e quais são os que não têm. Confesso que o escritor que não tem interesse intelectual não me interessa.

A mim, me interessa enormemente a poesia de Joaquim Cardozo, mas nunca me interessou a poesia de Emílio Moura – de Minas Gerais. Eu sinto que não tinha interesse intelectual. Não só a poesia de Emílio Moura, mas a grande maioria dos poetas brasileiros. Aliás, dos poetas brasileiros, não, mas do que se chama no mundo todo de poesia. Um homem de mediana inteligência não vê interesse intelectual naquilo. Tenho a impressão de que pode ser um defeito meu. Mas confesso. A atividade intelectual é uma coisa que seduz. Vivo para ela. Quando leio um poeta que só é capaz de provocar essas emoções correntes, como saudade, melancolia ou tristeza, essa coisa não me interessa. Ora, se tenho minhas emoções, para que vou buscar emoções semelhantes numa outra coisa?”.

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Fábio Sabino, pseudo-jornalista

Ele tem orelha de craque, focinho de craque e até uns trejeitos de craque. Seu “estar em campo” é um espetáculo por si só: chuteiras multicoloridas (apropriadas para jogar pisando em cifras), caras, bocas, chiliques, bordões et pourquoi pas uma torrente de comentaristas digamos “na sua”. Mas olhando bem, centrando-se somente na nobre arte de chutar bola, vem então a assombrosa constatação: “Ei, meu vizinho Dodoca joga mais do que esse cara (pega a cerveja, cospe e afunda no sofá consternado)”.

A Copa do Mundo recém finada foi a prova maior desse fenômeno. Entre jogos toscos e horas de debates sobre a tal bola maluca e as concepções teosóficas de Kaká, fui me sentindo cada vez mais e mais enganado por boleiros que faziam malabarismos nos comerciais, após horas de ensaio e não conseguiam acertar o passe para um companheiro a uma mônada de distância e, invariavelmente, deixavam suas seleções de passagem comprada para voltar pra casa.

É difícil entender como essa “figura” apareceu no futebol. Talvez o baixo nível dos campeonatos, a necessidade de vender a imagem do clube e dos patrocinadores através de uma estrela explique a situação.

Para transmitir melhor a idéia de que trato, posso citar vários exemplos de atletas que estiveram na copa última e que se encaixam perfeitamente na categoria de pseudo-craques: Robben, Robinho, Pirlo, Di Maria, Lampard, Elano, Anelka, (paro por aqui, a lista pode ser exaustiva). Alguns dominam bem algum fundamento do jogo e pela falta de um craque legítimo nas respectivas seleções até passam, outros tem no incompreensível a única explicação para o seu sucesso profissional.

Denilson, o hoje “””””’comentarista”””””” de futebol, é o Tipo Ideal para explicar o caso. Após súbita explosão na carreira, apoiada na sua inegável capacidade para o drible e para o pagode, o sujeito vai para Europa e simplesmente estaciona no processo de desenvolvimento de potencialidades e, passados alguns anos, retorna tendo conquistado nada, mas ainda assim aclamado “malabarista da bola”. Assim fez-se mais um charlatão de chuteiras.

Sou jovem, mas vi Zico, Laudrup, Hagi, Baggio, Zidane, Romário e Ronaldo em campo. E vi Rivelino, Cruijff, Pelé, Di Stéfano, Beckenbauer e outros tantos em vídeo. Sou vivido demais para me deixar enganar. Assisti a Copa, me empolguei como sempre, mas não me saia da boca o gosto de ludíbrio: paguei, mas não levei ou paguei por um texto de Tchekhov  e recebi um casamento de quadrilha como encenação.

Em poucos dos que estiveram em campo no último mês identifico as qualidades que os ponham ombro a ombro com os gênios citados. Falta-lhes talento e mesmo originalidade para levarem o futebol um passo á frente que seja. Kakás, Cristianos Ronaldos e Luis Fabianos (o encabuloso) são meninos de mandado, seja lá de quem for e em tempos mais generosos em talentos não teriam o nome que tem.

É claro que há ótimos jogadores e, uns mais outros menos, se destacaram na Copa. Para citar somente dois, fico com Forlan e Messi. O primeiro levou até onde foi possível uma seleção que aprendeu a não depender somente da nobreza de sua camisa, o segundo, mesmo abaixo do que pode fazer, jogou bem, ainda que mal acompanhado por um time com organização tática de padrão várzeano.

E antes que afoguemos de vez o Mundial no merecido esquecimento, cabe apenas o desejo de que nos próximos anos não triunfe o jogador de plástico, o “quase-bom”, o arremedo e que sim, ainda restem exemplares da nobre linhagem dos que, como disse o poeta João Cabral de Mello Neto, tratam a bola com “malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mãos”.

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