Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘contículos’

O contrário do homem

               Tinha fixação por tudo o que era podre no ser humano, ou melhor, por tudo o que nele apodrecia. Sobretudo o processo interessava-o. De tal maneira que, em sua lógica, o embrutecimento constante de nosso corpo era concebido como algo belo, e revelador – como tudo que é belo costuma ser.

                O fato é que ele conseguia chegar ao mais alto grau de apuramento espiritual quando em presença do que putrefazia: nesse momento, não se importava em parecer certo ou errado perante os seus, nem em ser sincero quanto aos sentimentos que possuía, e nem muito menos em afirmar-se gente na vida – tudo era menor diante da putrefação das coisas humanas.

              Por isso, frequentemente visitava consultórios odontológicos à procura de dentes podres extraídos de pessoas que, na tentativa de sanar sua curiosidade quanto ao modo como deixavam seus dentes chegarem àquele estado, fazia questão de conhecer. Regozijava-se com o odor dos flatos de sua esposa, e, às vezes, assustando a si próprio, costumava pensar que eles constituíam mesmo o único motivo de seu casamento. Convicto, dizia que no pé, especificamente no canto da unha, onde toda carne parece morta de tão anestesiada e fétida, estava o propósito do mundo tal como o conhecemos, a explicação inequívoca de nossa existência. Para ele, toda a metafísica do ser humano ali se resumia: apenas carne que apodrece!

              Entretanto, no fim, sua fixação por tudo o que era podre no ser humano, ou melhor, por tudo o que nele apodrecia era desprovido de qualquer interesse, pois não implicava desejo e sim distanciamento, um tipo de apreciação desinteressada. Disso decorre todo o resto: cuidava de seus dentes de acordo com o recomendado pelos dentistas que visitava na busca incessante pela podridão; dirigia-se sempre ao banheiro quando não conseguia mais segurar seus gases intestinais, esforçando-se ao máximo para que eles não fossem tão frequentes como os de sua esposa; e semanalmente, com a perícia de quem estudara anos para fazer aquilo, indiferente ao mundo que o rodeava, cortava as unhas de seus pés como se fosse o mais poderoso dos deuses!

Anúncios

Read Full Post »

PASSAM OS DIAS!

Eu sou de uma cidade onde pretensiosamente todos são bonitos. Quanto a isto não há dúvidas, nunca houve. A história não me deixa mentir: até hoje, passados séculos de nossa fundação, ainda não se pôde constatar um único caso de feiúra em nosso território. Pelo contrário, durante o ano, e isso desde há muito, milhares de pessoas nos visitam justamente para comprovar nossa condição, e para tentar descobrir o porquê de sermos assim: portadores de tanta beleza. Á nos, encontrar qualquer explicação definitiva para o fato nunca nos interessou; diria até que possuímos certa indiferença quanto ao assunto, somos bonitos, e pronto!

Senti-me arrebatado ao conhecê-lo, confesso, pois até ali éramos bonitos sem distinção, desta forma, prova inequívoca da ordem natural das coisas: privando-nos da feiúra, a natureza exercia sua infinda sabedoria agraciando-nos com o poder quase sobre-humano da conformidade. … e então presenciava aquilo, um insulto ao meu bom senso. Horrorizava-me perceber nele um jeito invulgar de beleza; ali, em pouco menos que um corpo, toda nossa usualidade era desafiada; Horrorizava-me, ainda mais, o fato de apenas eu perceber tal discrepância: bonito, mas não como nós; insuspeito de desejar sua diferença, mas diferente, e, por isso, culpado! Sim, culpado!

Portanto, muito cedo aprendemos que a beleza, como conceito ou como fato, não importa, nunca fora, é ou um dia será invariável em nossa cidade; temos certeza do quanto somos bonitos não apenas porque somos nós os primeiros a reproduzir isso como verdade – coisa realmente existente -, incontestável (e nenhuma matéria consegue ter existência mais incontestável do que este fato), mas porque somos levados a reproduzir isso como verdade – coisa realmente existente – por todos os que nos rodeiam, por todos aqueles que se abismam quando postos em contato conosco. Em suma, a nossa beleza é um fato, incontestável, porque conseqüência do que acreditamos e do que nos fazem acreditar!

Enfim, muito pouca coisa entre meus conterrâneos ganhava o status de anormal. Racionalmente, poderíamos atribuir isso a alguma falha ou distúrbio de percepção em alguma parte recôndita de nosso inexplorado cérebro; porém, era compreensível ter tal atitude entre nós, pois, ao contrário do que dizem, pensamos que o reconhecimento de si mesmo é anterior ao reconhecimento do outro. A dedução é simples: como éramos bonitos, todos os outros eram excluídos dessa condição; e isso sempre fora coisa bem resolvida em nossas mentes: não existia beleza além de nós, tudo era demarcado uniformemente por ela, inclusive ela própria. …mas por que ele era diferente?! E por que apenas eu soube disso?!

Era a única solução, eu sei! Não podia deixar que minha felicidade, e a de todos os meus semelhantes, isto é, bonitos como eu, fosse abalada pela existência de uma pessoa que nem sequer dava-se conta do tamanho do perigo que poderia oferecer; era meu dever, quase uma obrigação a mim imposta; acometera-me exatamente isto enquanto sentia seu sangue (vermelhidão abusiva seu sangue!), ainda quente, espalhando-se em minhas mãos como que atestando sua diferença, de modo a aprovar a razão de meu acometer assassínio.

Era a única solução, eu sei! …e apenas eu soube!

Read Full Post »