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Fábio Sabino, pseudo-jornalista

Ele tem orelha de craque, focinho de craque e até uns trejeitos de craque. Seu “estar em campo” é um espetáculo por si só: chuteiras multicoloridas (apropriadas para jogar pisando em cifras), caras, bocas, chiliques, bordões et pourquoi pas uma torrente de comentaristas digamos “na sua”. Mas olhando bem, centrando-se somente na nobre arte de chutar bola, vem então a assombrosa constatação: “Ei, meu vizinho Dodoca joga mais do que esse cara (pega a cerveja, cospe e afunda no sofá consternado)”.

A Copa do Mundo recém finada foi a prova maior desse fenômeno. Entre jogos toscos e horas de debates sobre a tal bola maluca e as concepções teosóficas de Kaká, fui me sentindo cada vez mais e mais enganado por boleiros que faziam malabarismos nos comerciais, após horas de ensaio e não conseguiam acertar o passe para um companheiro a uma mônada de distância e, invariavelmente, deixavam suas seleções de passagem comprada para voltar pra casa.

É difícil entender como essa “figura” apareceu no futebol. Talvez o baixo nível dos campeonatos, a necessidade de vender a imagem do clube e dos patrocinadores através de uma estrela explique a situação.

Para transmitir melhor a idéia de que trato, posso citar vários exemplos de atletas que estiveram na copa última e que se encaixam perfeitamente na categoria de pseudo-craques: Robben, Robinho, Pirlo, Di Maria, Lampard, Elano, Anelka, (paro por aqui, a lista pode ser exaustiva). Alguns dominam bem algum fundamento do jogo e pela falta de um craque legítimo nas respectivas seleções até passam, outros tem no incompreensível a única explicação para o seu sucesso profissional.

Denilson, o hoje “””””’comentarista”””””” de futebol, é o Tipo Ideal para explicar o caso. Após súbita explosão na carreira, apoiada na sua inegável capacidade para o drible e para o pagode, o sujeito vai para Europa e simplesmente estaciona no processo de desenvolvimento de potencialidades e, passados alguns anos, retorna tendo conquistado nada, mas ainda assim aclamado “malabarista da bola”. Assim fez-se mais um charlatão de chuteiras.

Sou jovem, mas vi Zico, Laudrup, Hagi, Baggio, Zidane, Romário e Ronaldo em campo. E vi Rivelino, Cruijff, Pelé, Di Stéfano, Beckenbauer e outros tantos em vídeo. Sou vivido demais para me deixar enganar. Assisti a Copa, me empolguei como sempre, mas não me saia da boca o gosto de ludíbrio: paguei, mas não levei ou paguei por um texto de Tchekhov  e recebi um casamento de quadrilha como encenação.

Em poucos dos que estiveram em campo no último mês identifico as qualidades que os ponham ombro a ombro com os gênios citados. Falta-lhes talento e mesmo originalidade para levarem o futebol um passo á frente que seja. Kakás, Cristianos Ronaldos e Luis Fabianos (o encabuloso) são meninos de mandado, seja lá de quem for e em tempos mais generosos em talentos não teriam o nome que tem.

É claro que há ótimos jogadores e, uns mais outros menos, se destacaram na Copa. Para citar somente dois, fico com Forlan e Messi. O primeiro levou até onde foi possível uma seleção que aprendeu a não depender somente da nobreza de sua camisa, o segundo, mesmo abaixo do que pode fazer, jogou bem, ainda que mal acompanhado por um time com organização tática de padrão várzeano.

E antes que afoguemos de vez o Mundial no merecido esquecimento, cabe apenas o desejo de que nos próximos anos não triunfe o jogador de plástico, o “quase-bom”, o arremedo e que sim, ainda restem exemplares da nobre linhagem dos que, como disse o poeta João Cabral de Mello Neto, tratam a bola com “malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mãos”.

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