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Archive for julho \19\UTC 2010

Por

Fábio Sabino, pseudo-jornalista

Ele tem orelha de craque, focinho de craque e até uns trejeitos de craque. Seu “estar em campo” é um espetáculo por si só: chuteiras multicoloridas (apropriadas para jogar pisando em cifras), caras, bocas, chiliques, bordões et pourquoi pas uma torrente de comentaristas digamos “na sua”. Mas olhando bem, centrando-se somente na nobre arte de chutar bola, vem então a assombrosa constatação: “Ei, meu vizinho Dodoca joga mais do que esse cara (pega a cerveja, cospe e afunda no sofá consternado)”.

A Copa do Mundo recém finada foi a prova maior desse fenômeno. Entre jogos toscos e horas de debates sobre a tal bola maluca e as concepções teosóficas de Kaká, fui me sentindo cada vez mais e mais enganado por boleiros que faziam malabarismos nos comerciais, após horas de ensaio e não conseguiam acertar o passe para um companheiro a uma mônada de distância e, invariavelmente, deixavam suas seleções de passagem comprada para voltar pra casa.

É difícil entender como essa “figura” apareceu no futebol. Talvez o baixo nível dos campeonatos, a necessidade de vender a imagem do clube e dos patrocinadores através de uma estrela explique a situação.

Para transmitir melhor a idéia de que trato, posso citar vários exemplos de atletas que estiveram na copa última e que se encaixam perfeitamente na categoria de pseudo-craques: Robben, Robinho, Pirlo, Di Maria, Lampard, Elano, Anelka, (paro por aqui, a lista pode ser exaustiva). Alguns dominam bem algum fundamento do jogo e pela falta de um craque legítimo nas respectivas seleções até passam, outros tem no incompreensível a única explicação para o seu sucesso profissional.

Denilson, o hoje “””””’comentarista”””””” de futebol, é o Tipo Ideal para explicar o caso. Após súbita explosão na carreira, apoiada na sua inegável capacidade para o drible e para o pagode, o sujeito vai para Europa e simplesmente estaciona no processo de desenvolvimento de potencialidades e, passados alguns anos, retorna tendo conquistado nada, mas ainda assim aclamado “malabarista da bola”. Assim fez-se mais um charlatão de chuteiras.

Sou jovem, mas vi Zico, Laudrup, Hagi, Baggio, Zidane, Romário e Ronaldo em campo. E vi Rivelino, Cruijff, Pelé, Di Stéfano, Beckenbauer e outros tantos em vídeo. Sou vivido demais para me deixar enganar. Assisti a Copa, me empolguei como sempre, mas não me saia da boca o gosto de ludíbrio: paguei, mas não levei ou paguei por um texto de Tchekhov  e recebi um casamento de quadrilha como encenação.

Em poucos dos que estiveram em campo no último mês identifico as qualidades que os ponham ombro a ombro com os gênios citados. Falta-lhes talento e mesmo originalidade para levarem o futebol um passo á frente que seja. Kakás, Cristianos Ronaldos e Luis Fabianos (o encabuloso) são meninos de mandado, seja lá de quem for e em tempos mais generosos em talentos não teriam o nome que tem.

É claro que há ótimos jogadores e, uns mais outros menos, se destacaram na Copa. Para citar somente dois, fico com Forlan e Messi. O primeiro levou até onde foi possível uma seleção que aprendeu a não depender somente da nobreza de sua camisa, o segundo, mesmo abaixo do que pode fazer, jogou bem, ainda que mal acompanhado por um time com organização tática de padrão várzeano.

E antes que afoguemos de vez o Mundial no merecido esquecimento, cabe apenas o desejo de que nos próximos anos não triunfe o jogador de plástico, o “quase-bom”, o arremedo e que sim, ainda restem exemplares da nobre linhagem dos que, como disse o poeta João Cabral de Mello Neto, tratam a bola com “malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mãos”.

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Descontadas todas as marcas de estilo, escolhas formais e de conteúdo, e todas as digressões acerca de fragmentação, descontinuidade e o escambau como característica primordial da obra literária de alguém, a melhor forma (digo melhor porque mais justa, ainda que não a mais correta) de aplacar os anseios juvenis de satisfação na leitura quando ainda não se tem erudição, ou até se tem, mas em medida insuficiente, é transformar a falha, ou impossibilidade interpretativa decorrente em experiência de natureza mítica/mística: a leitura e o texto canalizados nessa experiência de transmutação que os torna uno no leitor (não, não falo de apreciação estética; o negócio é outra coisa, vem de outros cantos, espontâneo, menos elaborado, instintivo quase: significante).

Funciona para mim.

É evidente que isso não deve, de modo algum, servir de subterfúgio para preguiça e, por consequência, superficialidade.

Eu tento encarar minhas dificuldades com honestidade, juro que tento…

Isso tudo para dizer que senhor T.S. Elliot tem me ensinado como nenhum outro.

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