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Archive for setembro \29\UTC 2009

DÍVIDA PAGA!

Alguém já deve ter dito que a falta de memória é o primeiro sinal de que uma cultura é caduca.

Escritores, poetas, jornalistas, políticos, rebeldes, humanistas… é possível numerar a quantidade de pessoas que só são rememorados ou mesmo conhecidos por nós através dos monumentos, pontes, prédios, praças e ruas que levam seus nomes. Tomemos o caso maranhense, por exemplo; quantos de nós, habitantes dessa terra de tanta história, lembramo-nos ou sequer conhecemos a vida e obra de gente como João Lisboa, Franklin de Oliveira, Rossini Corrêa, Mário Meirelles, Lucy Teixeira, Lago Burnett, Odilo Costa filho, Bandeira Tribuzi?!

Há 2 anos, quando comecei a pensar a respeito do tema de minha monografia (que será defendida pelo curso de História na UFMA no fim do ano – com ajuda dos deuses e demônios) não imaginei que estaria hoje tão entusiasmado com o que tenho descoberto a respeito dos ilustres homens e mulheres que viveram aqui em São Luís nas décadas de 40 a 60 do século passado (especifico esses anos pois formam o limite temporal de minha pesquisa). Em verdade, nem achei ser possível encontrar no Maranhão gente tão bem disposta intelectualmente, e, mais que isso, gente tão comprometida com sua cidade, com nossa cidade.

Bandeira Tribuzi

Quando iniciei minha pesquisa, o tema que pretendia estudar fundamentava-se basicamente na obra e vida do maior artista popular maranhense: João do Vale, sua relação com  centro cultural do país nos anos de auge do reconhecimento do seu trabalho, bem como sua relação identitária com o povo do Maranhão. Mas, depois de algumas dificuldades de ordem metodológicas (foram poucos as fontes encontradas para a sustentação de um trabalho historiográfico), o professor Wagner Cabral da Costa, orientador do meu estudo, sutilmente, através de algumas conversas e alguns empréstimos (inclusive de sua fundamental dissertação de mestrado intitulada “Sob o signo da morte” que versa a respeito das oligarquias vitorinista e sarneysta que determinaram politicamente o Maranhão de quase todo o século XX; um livro que merece especial atenção devido ao estudo que engendra e devido a forma como fora escrito) sugeriu-me uma outra alternativa: pesquisar a produção cultural ludovicense, suas ligações políticas e reverberações na sociedade da década de 60. Entrei no clima, e cá estou eu a falar de todos os grandes que não conhecia até outro dia, até outro dia mesmo!

TRIBUZI

De cara, interessou-me muito a história do senhor Bandeira Tribuzi, que além de ser nome de ponte e fundador do maior jornal do estado (“que ignorância a minha, meu deus”), foi um dos grandes intelectuais que um dia tivemos: o homem atuou em tudo quanto é área – foi poeta de mão cheia, economista de formação, jornalista atuante e contestador, participou do governo do Maranhão na década de 60 e 70, tendo especial destaque pelo grande conhecimento técnico e administrativo responsável por importantes obras no estado, e um dos maiores entusiastas da cultura em São Luís, e isso tudo sem nunca ter sido demagogo ou prepotente, afirmam sem medo os que o conheceram.

Tribuzi formou-se em Lisboa e voltou para o Maranhão no período da segunda guerra mundial, na bagagem trouxe nada mais nada menos que Fernando Pessoa, Maiakovski, Drummond, Sá-Carneiro, Garcia Lorca, etc, para um ambiente completamente não moderno em se tratando de literatura (basta observar que nos jornais da época, e até mais adiante, já no meio dos anos 60, a maior parte dos textos publicados ainda tinha como principal vertente poética o parnasianismo, datado do século XIX). Só este fato já traduz a importância de Tribuzi para São Luís, tanto que Ferreira Gullar, um dos maiores expoente da literatura moderna no Brasil, numa passagem do livro “Pela cidade do homem” de Rossini Corrêa, diz que em sua experiência literária o nome de Bandeira Tribuzi está ligado à descoberta da poesia moderna.

“A MESA

A mesa tem somente o que precisa
para estar, circundada de cadeiras,
fazendo parte da vida familiar
entre alimentos, flores e conversa.

Escura mesa gravemente muda
que, parecendo alheia a quanto a cerca,
encerra no silêncio toda a ciência
da idade desdobrando gerações.

olho de cerne, comovido e frio!
indiferente coração parado
entre o grito infantil e o olhar cansado.

Mistério de madeira rodeado
por cadeiras, lembranças, utensílios,
e um leve odor de tempo alimentício “

(Bandeira Tribuzi)



Mas ele ainda fez mais, muito mais.

Tribuzi fundou e dirigiu revistas (Malazarte – 1948 e A ilha – 1949) e Jornais (Jornal do Dia, O Estado do Maranhão, Jornal do Povo, A Cidade,) participou das movimentações seminais em torno da literatura no Maranhão (as discussões do Centro Cultural Gonçalves Dias e do grupo de artistas que se reuniam na Movelaria Guanabara na Praça João Lisboa, ambos situados na década de 40, foram os mais importantes deles) foi grande incentivador e crítico das produções artísticas locais, foi participante ativo das reivindicações sociais da época, relacionadas principalmente a economia, educação e à questão agrária no estado. Enfim, foi um homem admiravelmente incansável até sua morte em 8 de setembro de 1977, no aniversário da cidade onde nasceu e escolheu viver, e cujo  hino, em sua homenagem, é uma de suas louvações a São Luís musicadas.

tribuz

Bandeira Tribuzi e José Sarney (amigos de longa data), São Luis, 1948

Escolhi falar especialmente de Bandeira Tribuzi neste post por causa de sua especial ligação com a cidade em que nós nascemos e vivemos, pois ele, mesmo sabendo das dificuldades que acometem quem aqui vive, não titubeou em nenhum momento em estabelecer-se nela e fazer por ela o que pudesse.

…o que eu quero dizer é que vejo isto muito mais como coragem do que qualquer outra coisa!

Só para exemplificar o que eu digo: no mês passado, ao ser flagrado em um sebo comprando uma antologia de Tribuzi, o poeta Nauro Machado    disse-me, com toda convicção de sua lúcida velhice, que Bandeira Tribuzi é um dos poetas mais injustiçados da gerção de 45, por tudo o que envolve sua obra e vida.

Deixei de falar de muitos, mas para quem se interessar, aqui  alguns textos  do exclente blog “fantasia exata” sobre os caras que “fizeram” o Maranhão como Tribuzi:

Lago Burnett

Franklin de Oliveira

Sobre Bandeira Tribuzi

“Pela cidade do homem (uma interpretação de Bandeira Tribuzi)” de Rossini Corrêa. Edições UFMA: São Luis-Ma, 1982

“Memória e iconografia de Bandeira Tribuzi” de Carlos Cunha. Tipo Editor: Rio de Janeiro, 1979

“Esferas Lineares” de Nauro Machado. Edições SECMA: São Luís, 1996

Blog Alguma Existência sobre os 6o anos da publicção do primeiro livro de Tribuzi

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Like a velvet glove cast in iron

No geral, não cultivo interesse algum por HQs, quadrinhos, comics, mangás ou o que valha, por isso mesmo sequer quero entrar na discussão em relação ao valor artístico que possam ter, o que a meu ver nem é muito inteligente já que definir limites para a Arte sempre foi tarefa quase impossível… o negócio é o seguinte:

Tem um tal de Daniel Clowes que é simplesmente foda, mas  não vou me estender em falar sobre o cara pois o que não falta é informação a respeito dele.

luva-de-veludo

Ricardo Netto, que sempre foi amigo dos mais prestativos, deu-me para ler uma HQ do Dan Clowes que se chama “Como uma luva de veludo moldada em ferro” publicada no Brasil pela Conrad, aceitei o empréstimo com pouco entusiasmo, mas confiando que me seria uma leitura agradável. E foi não apenas agradável como uma experiência daquelas que nos marcam para sempre. Lembro-me que, antes de me emprestar o livro, Ricardo disse,

“bicho, quando tu terminar de ler esse livro, tu vai começar a ver as pessoas de outro jeito, elas vão te parecer como os personagens da estória”

Exatamente assim.

E nunca nada na minha vida se cumpriu com tanta certeza!

A estória do livro é nada linear e por isso não me atrevo a tentar torná-la entendível aos que ainda não a leram; o que posso dizer é que ela é repleta de referências a cultura pop, piadas ácidas, críticas veladas (ás vezes nenhum pouco) e substanciais a vida contemporânea; os desenhos são muito bem acabados e revelam o estilo marcante do autor – o legal é que apesar de ser uma HQ (e aqui revelo todo o meu preconceito sobre quadrinhos e equivalentes), o teor literário do livro é de alto nível, junção perfeita entre desenho e literatura! Mas o que mais me chamou atenção foram os personagens, os desenhos surreais que os representavam – como diz o outro, sente só o drama:

velvetglove06

O louco é que depois do livro, comprovando o que Ricardo me disse, as pessoas na rua me pareceram, e me parecem cada vez mais, completamente diferentes do que outrora eu via; ás vezes, sinceramente, acho que eu estou vivendo a estória do livro, ou pior, sinto que os personagens estão saltando para a realidade… Na fila do banco, no ônibus lotado, no cinema, até mesmo em casa, eu vejo pessoas com os mesmo traços disformes  da HQ, sensação das mais estranhas!!!

44_19_likeavelve

Digo que ter lido  Like a velvet glove cast in iron foi uma experiência  marcante pois, depois dele, mudei totalmente a forma de ver as pessoas, tentando encontrar nelas algo que não veria normamelmente: uma falha, um aspecto singular, uma deformidade,  o que é quase doentio e bem íntimo, enfim…

Consequentemente, através do Clowes, comecei a pesquisar algumas HQs e descobri algum interesse, ainda que pouco.

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SOBRE A MORTE

Dois poemas de expressão.

– e digo que sou completamente a favor da tese que diz que arte não pode ser apenas expressão.

Por não conseguir qualquer experiência válida no campo estético da linguagem, eu desisto!

E sem frustração ou remorso algum, deixo claro.

Morro, de certa forma, com meu avô e tio.

In memorian


PARA O AVÔ QUE TIVE E NÃO TIVE

O adeus nos olhos dos amigos que cultivei durante toda vida
É que me aperta o peito
Nesta hora.
Desfolha-me a razão vê-los ali
Com a tristeza serena de quem não escolhe, aceita.

Eu,
Do lado de mim,
Recluso no olho fechado, pergunto-me:
_ Qual deles o próximo a morrer o mundo?

PARA LUÍS CARLOS

O duro na morte
É o olhar sem rodeios que a realidade imprime
Na face em descanso.

Eu não vi o meu tio morto.
Muito menos consigo imaginá-lo assim
(são escassas as lembranças).
Mas sei que a bala
Ao responder sangue em seu corpo
Concluíra no olho
Seu último motivo de dor.

A tal dor que não suporta o papel!

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